O sistema brasileiro de fomento à ciência ganhou um novo espaço de divulgação de resultados e impactos. O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) lançou, em 2026, a revista “Ciência em Rede CONFAP”, publicação que reúne projetos científicos e soluções tecnológicas apoiados pelas fundações estaduais em todo o país.

A iniciativa marca também os 20 anos de criação do conselho e busca tornar mais visível o papel das fundações estaduais na promoção da ciência, tecnologia e inovação. Produzida em parceria com as 27 Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), a revista apresenta experiências de diferentes regiões do Brasil e evidencia como o investimento em pesquisa se conecta ao desenvolvimento social, econômico e sustentável.
A primeira edição foi apresentada durante a 71ª edição do Fórum Nacional do Confap, realizada em Roraima, reunindo casos de sucesso de oito fundações: a Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT), Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI), Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Roraima (FAPERR), Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) e Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC).
Além dos estudos selecionados, a publicação traz reportagem sobre a iniciativa Amazônia+10, um artigo da área de Cooperação Internacional do Confap e um texto de opinião da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos.
Opala piauiense como exemplo de ciência aplicada
Entre os destaques da primeira edição está o caso apresentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi), que aborda como a ciência e a tecnologia contribuíram para reposicionar a opala piauiense no mercado internacional de gemas.



A história da opala brasileira mistura tradição, geologia e pesquisa científica. A gema, formada por dióxido de silício hidratado, é conhecida pelo fenômeno óptico chamado “jogo de cores”, que produz reflexos iridescentes. A variedade encontrada no Piauí, porém, apresenta características raras, como maior dureza e resistência, aproximando-se do padrão das joias de alto valor.
No Brasil, o principal polo de extração está concentrado em Pedro II, município de cerca de 38 mil habitantes onde a opala foi descoberta por acaso na década de 1940. Durante décadas, a exploração ocorreu de forma informal, marcada por garimpos artesanais e pouca inserção nas cadeias internacionais da joalheria.
Esse cenário começou a mudar com a retomada do Arranjo Produtivo Local (APL) da Opala, iniciativa coordenada pelo geólogo Érico Gomes, do Instituto Federal do Piauí (IFPI), em parceria com a professora da Uespi, Lilane Brandão. O projeto reúne mineradores, artesãos, empreendedores e pesquisadores com apoio do CNPq, da Fapepi e de outros órgãos do governo estadual como a da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) e da Secretaria do Planejamento do Estado do Piauí (Seplan).
Segundo Gomes, o apoio institucional foi decisivo para transformar o potencial natural da região em uma estratégia estruturada de desenvolvimento. “Sem esse investimento contínuo e estratégico não seria possível alcançar os resultados que hoje reposicionam a opala de Pedro II no cenário gemológico mundial”, afirma.
Na avaliação do presidente da Fapepi, João Xavier, o projeto ilustra o papel das fundações de pesquisa na transformação de conhecimento em desenvolvimento regional. “Nosso investimento é também simbólico. Trata-se de reposicionar o Piauí na gemologia internacional e transformar ciência em desenvolvimento”, diz.
Ciência, sustentabilidade e mercado
O APL da Opala passou a incorporar ações de qualificação profissional, inovação tecnológica e sustentabilidade. Entre os resultados estão a criação de um índice de sustentabilidade para avaliar dimensões sociais, ambientais e econômicas da atividade mineral, além de estudos sobre recuperação de áreas degradadas e reaproveitamento de resíduos da lavra.
Pesquisas conduzidas por estudantes e pesquisadores do IFPI investigam, por exemplo, a utilização de rejeitos da mineração para produzir rochas artificiais com propriedades compatíveis com normas técnicas internacionais.
A iniciativa também fortaleceu a cadeia produtiva local. Em menos de dois anos, o projeto contribuiu para a qualificação de garimpeiros e artesãos, a ampliação da governança do setor e o início de um processo de internacionalização da opala piauiense.



Em 2024, Teresina sediou o congresso Inova Joalheria, primeiro evento do setor realizado no Nordeste, reunindo debates sobre design de joias, novas tecnologias de produção e estratégias de comercialização.
No mesmo período, foi reaberto em Pedro II o Centro de Tecnologia e Artefatos Minerais (CETAM), que passou a oferecer cursos de gemologia, lapidação, ourivesaria e design 3D, ampliando o acesso a tecnologias antes restritas a grandes centros.
Reconhecimento internacional
O avanço científico também levou a opala piauiense aos laboratórios internacionais. Pesquisadores do Gemological Institute of America (GIA), referência mundial em gemologia, visitaram Pedro II para coletar amostras destinadas a estudos de caracterização e certificação da gema.


Segundo o geólogo e gemólogo Brian Charles Cook, as análises permitirão identificar características únicas da opala brasileira. “A opala daqui tem assinatura própria. Compreender sua formação permitirá certificar a procedência e combater fraudes”, afirma.
Os resultados da pesquisa deverão ser publicados na revista científica Gems & Gemology ainda em 2026.
Próximas edições
A revista “Ciência em Rede CONFAP” terá três edições em 2026, lançadas ao longo dos Fóruns Nacionais do conselho. A segunda está prevista para junho e a terceira para novembro.
Ao reunir projetos de diferentes estados, a publicação busca evidenciar como a articulação entre as fundações estaduais de amparo à pesquisa tem contribuído para transformar conhecimento científico em inovação, políticas públicas e oportunidades de desenvolvimento regional.
No caso do Piauí, o percurso que começou em garimpos improvisados ganha hoje novas dimensões, conectando minas de opala, laboratórios internacionais e centros de formação tecnológica — um processo que ilustra como ciência e inovação podem transformar um recurso natural em estratégia de desenvolvimento.
Clique aqui para acessar a revista.