Pacote anunciado prevê aumento na concessão de bolsas de graduação, mestrado e doutorado, além da atração de doutores e rede de inteligência voltada a vocações econômicas dos territórios do estado

No momento em que o debate sobre o desenvolvimento regional se desloca da infraestrutura tradicional para a economia do conhecimento, o Piauí tem buscado se posicionar como um dos principais polos científicos do Nordeste. Em solenidade realizada nesta segunda-feira (25) no Palácio de Karnak, o governo estadual, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi), anunciou um investimento recorde de aproximadamente R$ 70 milhões destinado a fortalecer a formação científica, a pós-graduação e a inovação tecnológica.

Mais que o volume financeiro, celebrado como o maior da história do setor no estado, o pacote de medidas costura uma estratégia de descentralização e aplicação prática da ciência. O objetivo central é conectar os laboratórios universitários às demandas reais das cadeias produtivas e dos arranjos econômicos do interior piauiense.

Foto: Gabriel Paulino.

O evento, “Piauí do Conhecimento: Mais Formação, Mais Renda”, reuniu uma série de ações governamentais em que foram lançados editais estratégicos e firmados acordos de cooperação técnica com as principais agências federais de fomento (CNPq, Capes e Finep), além de um protocolo de intenções com cinco universidades públicas que atuam no estado.

Para o presidente da Fapepi, João Xavier, o “Piauí do Conhecimento” representa mais um eixo do Programa Mais Formação, Mais Renda, e a escolha do nome simboliza a descentralização das ações da fundação e a expansão do acesso à ciência em todas as regiões piauienses.

Essa disposição em capilarizar o fomento se refletiu diretamente na expressiva mobilização da comunidade científica e acadêmica local, que lotou o Palácio de Karnak. A solenidade reuniu um público diversificado e diretamente beneficiado pelas ações, composto por docentes, pesquisadores de diversas áreas, discentes, bolsistas e gestores de instituições como UFPI, Uespi, IFPI, Univasf e UFDPar.

Foto: Cristiane Araújo.

Também marcaram presença coordenadores de programas de pós-graduação, graduação e extensão, além de dirigentes institucionais e lideranças que compõem o ecossistema de ciência, tecnologia e inovação do Piauí, consolidando o caráter participativo da nova política de fomento.

“É um marco histórico não apenas pelo volume de investimentos, mas sobretudo pela forma com que estamos empregando esses recursos: de maneira descentralizada, integrada e olhando para problemas reais do nosso território. Claro que a pesquisa teórica é importante, mas o recurso público estadual precisa ter um retorno mais imediato para o bem do nosso povo. Tem de ser pesquisa aplicada e conectada às demandas de inovação do mercado, do governo e do terceiro setor”, afirmou o governador Rafael Fonteles.

Governador Rafael Fonteles. Foto: Gabriel Paulino.

Os investimentos da Fapepi miram desde a base da formação acadêmica, com a iniciação científica na graduação, até o topo da pirâmide acadêmica, combatendo a histórica “fuga de cérebros” para grandes centros do Sul e Sudeste. Entre as principais frentes está o Programa de Apoio à Pós-Graduação Stricto Sensu, o PAPG, que figura como a principal ferramenta de fomento à formação de recursos humanos qualificados.

Com um investimento global de R$ 16,8 milhões em recursos, o programa vai financiar 245 bolsas de mestrado, com parcelas mensais de R$ 2.100,00 por até 24 meses, e 30 bolsas de doutorado, no valor de R$ 3.100,00 por até 48 meses. A iniciativa tem como parceiras institucionais a Uespi, a UFPI, a UFDPar, o IFPI e a Univasf. O presidente da Fapepi, João Xavier, destacou que a expectativa é que, ao implementar essas bolsas, o estado atinja a marca de 650 cotas ativas, quase ultrapassando o número de bolsas da própria Capes no território piauiense.

João Xavier, presidente da Fapepi. Foto: Gabriel Paulino.

Em outra frente de destaque, desenvolvida em parceria inédita com o CNPq e a Capes, o Piauí lançou o programa Conhecimento Brasil, batizado de PROFIX-CB. O estado se tornou a primeira unidade da federação a regulamentar e liberar esse edital, que soma R$ 24,1 milhões em investimentos. O programa apoiará 24 projetos de pesquisa liderados por doutores sem vínculo empregatício.

Cada proposta receberá um auxílio de R$ 150 mil para custeio e capital, além de uma rede integrada de bolsas que inclui uma cota de doutorado da Capes, uma de mestrado da Capes e uma de iniciação científica da Fapepi, todas vinculadas à bolsa principal de fixação do CNPq, com vigência de 48 meses.

Foto: Gabriel Paulino.

Para romper com a assimetria entre a capital e o interior, o Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional (PDCTR), operado junto ao CNPq, destinará R$ 3,4 milhões para a concessão de até 18 bolsas de fixação regional. O foco é atrair doutores desvinculados do mercado de trabalho para instituições de ensino e empresas públicas ou privadas sem fins lucrativos fora do eixo metropolitano de Teresina.

Na base da formação, o Programa de Bolsas de Iniciação Científica (PBIC), vai injetar R$ 2,5 milhões para custear 300 bolsas de graduação no valor de R$ 700,00 por 12 meses. O edital traz como inovação a exigência de uma distribuição paritária, garantindo metade das vagas para discentes mulheres e metade para homens.

O reconhecimento público aos divulgadores da ciência também ganhou espaço com o Prêmio Fapepi de Popularização da Ciência Arqueóloga Niède Guidon, uma homenagem à icônica arqueóloga defensora do Parque Nacional Serra da Capivara. A chamada pública de natureza premial vai distribuir R$ 100 mil para reconhecer projetos e produtos de comunicação científica já executados no Piauí.

A premiação contemplará os três primeiros colocados de subcategorias voltadas para profissionais de comunicação e jornalismo em TV, rádio, podcast e mídia digital, além de professores, pesquisadores e extensionistas que atuam com educação científica e saberes comunitários.

O desenho do evento evidenciou também o alinhamento político e administrativo do governo piauiense com as diretrizes de Brasília. Presente na solenidade, o presidente do CNPq, Olival Freire, elogiou a agilidade local, apontando que o Piauí se destacou nacionalmente ao estruturar com rapidez a documentação necessária para a largada do programa de fixação de talentos.

“Hoje é um dia histórico para o Piauí e eu diria para o Brasil. Um dos editais que eu mais gostaria de enfatizar é o PROFIX-Conhecimento Brasil, voltado à fixação de talentos altamente qualificados em áreas estratégicas. É um edital que ocorrerá em cada unidade da federação, mas o Piauí teve o destaque de ser o primeiro estado a preparar toda a documentação e lançar o edital”, afirmou.

Além dos editais, foram chancelados atos de cooperação de longo prazo. Um deles foi o acordo firmado com a intermediação da Secretaria de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação, focado em projetos futuros de inteligência artificial e transformação digital.

André Macêdo, secretário de inteligência artificial e governador Rafael Fonteles ao lado do presidente do CNPq, Olival Freire e do presidente da Fapepi, João Xavier. Foto: Gabriel Paulino.

Outro destaque foi o acordo Capes Global.edu, que soma mais de R$ 18 milhões para impulsionar a internacionalização de 34 programas de pós-graduação da UFPI e da UFDPar. Paralelamente, um Protocolo de Intenções de R$ 3 milhões reuniu o governo e cinco universidades para unificar as políticas editoriais das instituições, financiando a publicação e a difusão de livros e obras técnicas geradas pelas pós-graduações.

Nadir Nogueira, reitora da UFPI. Foto: Gabriel Paulino.

A solenidade marcou ainda o início da transição para a quarta edição do Programa Tecnova, principal política pública de subvenção econômica a micro e pequenas empresas inovadoras, capitaneada pela Finep. Com a assinatura da Carta de Intenções para o Tecnova 4, o Piauí se credencia para acessar o fundo nacional de R$ 360 milhões que será liberado no segundo semestre.

A analista da Finep, Larissa Torres, apresentou um balanço detalhado dessa parceria histórica no estado, lembrando que o Piauí registrou uma das maiores submissões de ideias do país no programa Centelha, com mais de mil propostas inscritas por CPFs que posteriormente se transformaram em empresas de base tecnológica. O histórico de inovação do estado inclui 20 empresas contratadas no primeiro Centelha, 52 no segundo e mais 47 em vias de contratação na terceira edição. No segmento de empresas mais robustas, o Tecnova 2 contratou 10 empresas locais, enquanto o Tecnova 3 alcançou a marca de 30 negócios financiados em pleno desenvolvimento no Piauí.

Encerrando as atividades no Palácio de Karnak, o governo estadual realizou a assinatura simbólica dos termos de outorga dos pesquisadores aprovados no Edital número 007/2025, uma cooperação de R$ 3,2 milhões entre a Fapepi e a Seplan.

A iniciativa vai financiar a estruturação de Núcleos de Inteligência Territorial nos territórios de desenvolvimento dos Cocais, Planície Litorânea, Serra da Capivara e Tabuleiros do Alto Parnaíba. Coordenados pelo Centro de Inteligência em Economia e Estratégia Territorial da Seplan, esses núcleos funcionarão como observatórios de dados regionais, conectando universidades e gestores públicos para testar e validar soluções práticas voltadas aos problemas estruturais do interior do estado.