Experimentos com biofertilizantes, hidrogel e técnicas de manejo do solo buscam recuperar áreas degradadas e ampliar as possibilidades de produção agrícola no sul do Piauí

A colheita dos primeiros milhos no Núcleo de Pesquisa e Recuperação de Áreas Degradadas (Nuperade), em Gilbués, no sul do Piauí, marca uma etapa do trabalho científico voltado à recuperação de áreas afetadas pela desertificação. Após estudos, experimentos e aplicação de técnicas de manejo, o espaço também registra o desenvolvimento de culturas como caju, acerola, tamarindo, tomate e cenoura.

O trabalho busca identificar alternativas para melhorar as condições de cultivo em áreas degradadas e ampliar as possibilidades de produção agrícola na região. A iniciativa reúne pesquisadores e instituições públicas e privadas em torno de estratégias de recuperação ambiental que possam contribuir para o desenvolvimento de práticas produtivas sustentáveis.

O projeto integra uma iniciativa conjunta da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI), da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH), da Universidade Federal do Piauí (UFPI), do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Polissacarídeos e da AFERT BioFertilizantes.

A articulação entre as instituições iniciou em 2023, com discussões sobre a retomada de ações para enfrentar a degradação ambiental em Gilbués. Em junho daquele ano, um mapeamento detalhado da área contribuiu para orientar as intervenções e estabelecer as bases para o desenvolvimento de estudos e experimentações.

Técnicas de manejo favorecem o desenvolvimento das culturas

As pesquisas no Nuperade combinam o uso de biofertilizantes e hidrogel com técnicas de manejo do solo, como a construção de curvas de nível, que ajudam a reter a água da chuva e reduzir a erosão. As intervenções buscam melhorar as condições de cultivo e favorecer o desenvolvimento das plantas, especialmente em períodos de menor disponibilidade hídrica.

Segundo Lucas Ferraz, pesquisador e responsável técnico pelo manejo de plantas no Nuperade, dez áreas passaram por intervenções para recuperar o solo. Os experimentos já apresentam resultados, como o desenvolvimento das culturas e o florescimento de mudas.

“Inicialmente, foi feita toda a correção do solo com biofertilizante. Há um ano, foram implantadas as primeiras mudas de caju, que, após esse período, floriram, indicando uma resposta positiva às técnicas aplicadas. Ainda temos, o milho experimental, a acerola e o tamarindo, se desenvolvendo e florindo. Isso é fantástico. A taxa de sobrevivência das plantas também tem sido otimizada com o uso do hidrogel, para fornecer água durante o verão”, afirmou Ferraz.

A colheita do milho representa um resultado concreto dos experimentos e permite acompanhar, na prática, a resposta das culturas às técnicas empregadas. A continuidade das pesquisas deverá contribuir para avaliar o desempenho das soluções utilizadas e suas possibilidades de aplicação em outras áreas afetadas pela degradação ambiental.

Produção local e oportunidades para agricultores

Com os resultados alcançados, Gilbués encontra novos caminhos para fortalecer a agricultura familiar. O acesso ao conhecimento técnico e a adoção de práticas de cultivo mais sustentáveis podem ampliar a produção local, reduzir a dependência de hortaliças provenientes de outros municípios, como Barreiras, na Bahia, e criar oportunidades de geração de renda para os agricultores. A expectativa é que iniciativas como as desenvolvidas no Nuperade ofereçam conhecimento e estrutura para ampliar a produção em diferentes escalas, com mais eficiência e sustentabilidade.

O agricultor Francisco Washington também relata resultados positivos nas experiências de cultivo realizadas na região. Para ele, a diversificação das plantações indica novas possibilidades para a agricultura local, embora ainda existam desafios relacionados ao acesso à tecnologia e à regularização fundiária.

Francisco Washington, agricultor local. Foto: Maria Catiany.

“Em Gilbués, tudo o que tentamos plantar, de girassol a repolho, tem produzido muito bem. Eu agora estou vendo as portas se abrindo, mas ainda precisamos de um pouco mais de tecnologia e até mesmo de regularização fundiária”, disse.

Pesquisa e educação ambiental

Conhecida pela paisagem de terras avermelhadas e áreas intensamente erodidas, Gilbués é um dos núcleos históricos de desertificação do Brasil. A degradação da região se intensificou ao longo das décadas, em um contexto marcado pela exploração de diamantes e por outras intervenções humanas. A perda da cobertura vegetal e a erosão afetaram a qualidade do solo e sua capacidade produtiva, com impactos sobre a agricultura e a vida da população.

Além das pesquisas e da aplicação de tecnologias, o Nuperade tem sido importante para disseminação do conhecimento e conscientização ambiental. A proposta é aproximar a ciência da população e ampliar o acesso a informações sobre recuperação ambiental, conservação do solo e práticas produtivas sustentáveis.

A expectativa é que o núcleo se consolide como um espaço de pesquisa e inovação ecológica, conectando ciência, educação ambiental e produção agrícola. A continuidade dos estudos poderá contribuir para avaliar a eficácia das técnicas empregadas e identificar alternativas que possam ser adotadas por agricultores em áreas afetadas pela desertificação.

A primeira colheita de milho representa um marco visível do trabalho experimental desenvolvido no Nuperade. Os resultados iniciais abrem caminho para novas avaliações sobre a recuperação do solo e o potencial produtivo das áreas estudadas, em uma região que enfrenta há décadas os efeitos da degradação ambiental.